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04/08/2008 - Valor Econômico, São Paulo, Legislação & Tributos
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Priscylla Spencer é a engenheira de produção responsável pela logística no escritório Dantas, Lee, Brock & Camargo
 
 
Escritório de advocacia é lugar para engenheiro, matemático e negociador
De São Paulo
Escritório de advocacia é lugar de advogados, certo? Não necessariamente. Para gerenciar o contencioso de massa de clientes importantes como Sony, Samsung, Motorola, Mercado Livre, Natura, entre outros, o escritório Dantas, Lee, Brock & Camargo advogados apostou em uma engenheira. Priscylla Spencer que já ajudou a gerenciar a logística de distribuição do Grupo Pão de Açúcar é hoje a engenheira que ocupa uma salinha especial no meio do escritório reservado às equipes responsáveis pelo gerenciamento dos milhares de processos dessas empresas. É lá, de seu aquário, que ela controla toda a logística que envolve esse tipo de trabalho.

São advogados correspondentes que precisam ser contratados, fluxos que precisam ser regulados, documentos anexados. Ela é a responsável pela linha de produção do escritório que começa com o passo um, realizado ainda na empresa com o preenchimento dos dados do consumidor, até chegar ao passo seis com o encerramento da causa. É ela também que monitora se os operadores de logística estão observando metas de quilometragem. Por essa meta, os operadores precisam encontrar qual o melhor advogado disponível nas diversas cidades brasileiras e que esteja a uma menor distância dos tribunais.

A ousadia de contratar profissionais fora do mundo jurídico começou há três anos no escritório. Além de uma engenheira, os sócios do escritório contrataram também especialistas em negociar com consumidores e um analista de sistemas, Eduardo Minghini, para desenvolver um programa sob medida para o escritório. Hoje esse sistema está instalado nas próprias empresas que são clientes do escritório. Pelo sistema é possível ainda gerar uma série de gráficos e fazer análises do passivo das companhias, além de otimizar os valores que precisam ser provisionados pelas empresas que são auditadas. Até fórmulas matemáticas foram criadas, com a ajuda de professores do Instituto de Matemática da Universidade de São Paulo.

A matemática acabou por atrair a advogada Hilana Drummond, que com apenas 28 anos comanda uma conta importante do escritório. São os cálculos matemáticos e estatísticos que ajudam Hilana a mapear os problemas do novo cliente, que chegou ao escritório há dois meses. Pelos dados, um gargalo já foi identificado, uma explosão de reclamações dos consumidores dos produtos da marca em Pernambuco.

Com os dados gerados pelas reclamações dos consumidores ou os processos judiciais iniciados é possível fazer um verdadeiro mapa da origem dos problemas da companhia. Um grande cliente do setor de eletroeletrônicos, por exemplo, conseguiu reduzir de 13 mil para três mil o número de processos e reclamações no Procon de consumidores. Os problemas identificados eram de simples resolução e a maior parte envolvia a demora no atendimento ao cliente: o famoso artigo 18 do Código de Defesa do Consumidor que prevê um prazo de 30 dias para solução de defeito de produto, por exemplo. A companhia não cumpria esses prazos, por problemas no fluxo de informações.

Por meio desses dados, que chegam aos milhares todos os dias, o escritório já identificou outros problemas curiosos. Uma determinada marca de celular, que hoje não está mais no mercado, registrava muitas reclamações nas cidades do litoral. O problema descoberto era que certas peças do aparelho não estavam preparadas para a maresia e oxidavam, gerando as reclamações dos consumidores.

Outro cliente conseguiu reduzir o número de reclamações que tinha em Minas Gerais, ao descobrir que o problema era o que se chama de importação paralela. Isso ocorre quando pessoas físicas trazem produtos do exterior que apresentam defeitos, mas produtos estes que sequer são vendidos no Brasil pelas companhias. Por este motivo não há uma assistência técnica disponível. O resultado foi que a empresa passou a ajuizar processos criminais contra esses importadores por não terem alertado os consumidores que o produto não tinha assistência no Brasil e assim eliminou o foco de reclamações.

Para fechar a logística do processo, o passo seis, o escritório passou também a ser responsável pela liquidação financeira. As empresas transferem recursos mensalmente para uma conta corrente ligada ao escritório, que se responsabiliza pelo pagamento e o encerramento das causas. (JG)